O NOVO E O VELHO

Quem no presente tem seu olhar voltado para o passado se esquece do próprio futuro. Será verdade? Voltar no tempo e notar que muita coisa mudou nem sempre denota apego ao passado. Pode ser sim motivo de redobrada alegria ver o tempo passar e com ele o surgimento de coisas novas. Inegável. O antigo que experimentou seu tempo de glória não perde a majestade.  Os museus que o digam.  Um pouco de saudosismo não faz mal a ninguém.

Abramos o baú do tempo: Três seriados de aventuras faziam a festa da garotada: O Sombra, Tarzan, o rei das selvas e O Vingador e seu leal companheiro, o índio Calunga.  A Rádio Clube de Pernambuco também era responsável pelos suspiros e lágrimas arrancadas das fiéis ouvintes da novela “O Direito de Nascer”.  “O Sombra” implacável na defesa do bem contra o mal. Na hora do enfrentamento se tornava invisível e sempre levava vantagem sobre o inimigo. Música de fundo pesada, cujo título não me recordo, vinha acompanhada da célebre frase: “Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos”? Resposta seguida de gargalhada cavernosa: “O Sombra sabe, ah, ah, ah, ah”.

Cenário de mata fechada. Os guinchos repetidos da macaca Chita significavam Jane em apuros. Ouve-se um grito cortando o silêncio da floresta. Era Tarzan pulando, ou melhor, voando de galho em galho em defesa de sua querida companheira.

Quanto ao índio Calunga, este tinha convicções muito fortes. Honesto e amigo da verdade. Na luta pela justiça social tornou-se prisioneiro e forçado a jurar que jamais falaria com o parceiro de tantas lutas em defesa dos mais fracos. Mesmo depois de solto permaneceu fiel ao juramento. Deixou de falar com o seu inseparável amigo o Vingador. Heron Chico das Neves não segurou as lágrimas. Seria o fim de tudo? Estaria a famosa dupla de heróis, tão querida pelo público infantil, chegando ao seu final?

Mistérios do Além passava às sextas-feiras lá pras nove da noite. Programa meio esquisito. Impróprio para crianças. Narrativas mirabolantes, puxando para o macabro e só palatáveis depois de muito boa vontade. Um episódio: Jovem casal se apaixona num baile. Amor à primeira vista. Dançaram juntinhos. Beijos. O tempo todo trocando juras de amor. Que noite maravilhosa! Estudantes universitários tinham muitas coisas em comum. Ambos gostavam de boa música, praia, literatura e futebol. Não havia dúvida, nasceram um para o outro. Lá fora caía chuva fininha enquanto o carrilhão da Igreja acabara de anunciar meia noite. “Preciso ir embora. Já é tarde. Minha mãe deve estar preocupada” disse ela. Ele, cavalheiro, pôs sobre a bela namorada seu casaco de couro enquanto a conduzia para casa porque fazia muito frio. Aquela estória de amor era muito bonita para durar apenas uma noite. Despediram-se aos beijos. Marcaram novo encontro.

Dias depois o jovem reconheceu o belo retrato de Eliza, na parede. Minha filha não mora mais aqui, falou uma senhora visivelmente assustada. Há dois anos Deus a levou. Aproveitaram para dar uma chegada até ao cemitério. O casaco de couro jazia sobre o túmulo de Eliza. Acredite se puder.

Praticamente ninguém tinha rádio em casa. A molecada se apinhava no oitão da venda de seu Caboclo, que também gostava de rádio. O receptor ficava sobre uma mesa junto com muitos outros objetos. Latas de sardinha, caixa de fósforos, pasta de dente, papel de embrulho, caneta, livros velhos, cadernos e outras mercadorias, tudo na maior desarrumação do mundo. Mas, ninguém tinha nada com isso. A parte superior da porta ficava aberta. Os ouvintes se escoravam na parte de baixo, atentos para não perder qualquer diálogo. Nos intervalos, haja conversa.

A obediência de Heron Chico das Neves não tnha limites. Um dia faltava menos de dez minutos para Tarzan começar quando o pai mandou comprar pão na padaria de Jiquiá. Que sufôco! Sem discutir, foi ligeiro e voltou correndo, cerca de quilômetro e meio. Se perdeu três minutos do primeiro capítulo, foi muito.

Baixinho, cheio de fungados e cacoetes, seu Caboclo era homem de hábitos um pouco estranhos. Decidiu tirar carteira de motorista. Adquiriu um livro tipo “aprenda você mesmo”. Nas horas vagas decorava regulamentos, textos e sinais de trânsito. À medida que avançou nos estudos pirou de vez. Passou a reproduzir o ruído do motor e o som da buzina. Simulando manusear um volante invisível, gritava: Vruuuum, vruuuum, vruuuum,  fonfon, fonfon, fonfon. Sai da frente Olegária, referindo-se à própria esposa.

Na Rua de São Pedro, entre as mercearias de seu Caboclo e a de seu Cícero ficava a venda de seu Arlindo. O pai gostava de comprar lá. Preço e atendimento melhores?  Creio que sim. Não havia pacotes prontos de farinha, feijão, arroz, milho, manteiga, banha de porco etc. Ovos eram exibidos em cestas de arame penduradas a altura do balcão. Era preciso olhar cada um contra a luz para garantir que estavam bons. Sem refrigeração, ficavam estragados em pouco tempo. Cada produto era pesado e embrulhado manualmente. Depois, vamos pra ponta do lápis. Soma daqui, tira a prova dos noves dali, o relógio batia dez horas da noite. Pra quem tinha chegado na venda às sete! Toda semana era esse lengalenga. A gente perdia a noite fazendo compras.

Viva a televisão em cores! Veio para ocupar o espaço do rádio de antigamente. Será?  Tem-se notícia de que pessoas no mundo inteiro deixaram de usar televisão em favor do diálogo familiar. Por outro lado, evangélicos mais consagrados há muito que decidiram não se contaminarem. Acham que os programas são permissivos demais para não dizer obscenos, corruptores dos bons costumes. Novelas incitam adultério, separação conjugal, desobediência e desrespeito. Degradação da família.

Diante  das quilométricas filas dos modernos supermercados, sou mais a venda de seu Arlindo. Entretanto, que viva o novo com todo o resplendor, inovação, praticidade e tecnologia!

Escrito por José Carvalho.

 

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DISNEYLÂNDIA

Nossa primeira viagem aos Estados Unidos aconteceu em julho de 1996. Adquirimos junto a uma Empresa de turismo, um pacote incluindo passagem aérea de ida e volta em voo “charter” para Orlando, diárias de hotel, ingressos nos parques temáticos da Disney além de uma esticada até Miami para compras. Nessa época do ano, lá é quente que nem o Nordeste brasileiro.  

Quando me entendi por gente, pacote significava apenas qualquer volume envolvido em algum tipo de embalagem: Pacote de açúcar, de café, de bolacha, de macarrão, de biscoito, de fubá, de farinha e de feijão. Também se falava em pacote de cigarros. O significado da palavra ganhou amplitude. Hoje é pacote pra tudo que é lado. Por exemplo, o nome de contrato incluindo telefone fixo, celular, internet e assinatura de televisão a cabo, é pacote. E quando o turista é deixado no meio do caminho sem lenço e sem documento? Que Deus nos livre desse pacote embrulhado para presente. De grego. Entretanto, houve um dito econômico que até hoje ninguém conseguiu engolir: Na calada da noite, confisco à mão armada da poupança do povo brasileiro. Leia-se Dra. Zélia Cardoso de Melo e ex-presidente Collor também de Melo e de triste lembrança. Os dois. Caso de polícia.

E quem de nós, míseros mortais, ao nascer, pode dar uma sugestãozinha no que se refere ao sexo, cor da pele, família, país, língua e o próprio nome? Eis aí mais um pacote. Grátis.

Conheço muita gente que não tem o menor interesse em ir à Disneylândia. Uns alegam que não vão porque não vão com a cara do americano, outros, porque não são mais crianças. Paciência. Não vale defender o indefensável, entretanto, é necessário colocar cada coisa em seu lugar. Nem todos os de lá se chamam Bush. Quanto aos brinquedos, alguns, desaconselháveis para os baixinhos, causam arrepio até em gente grande.

Entre turistas e estudantes daqui e da Paraíba éramos ao todo umas quinhentas pessoas. Partindo do Recife em voo direto, chegamos a Orlando de madrugada. Por ocasião da aterrissagem todo mundo agradeceu a feliz viagem, com uma salva de palmas. O avião enorme comportava dez assentos por fila, com quatro deles no centro, três em cada lateral separados por dois corredores. Entre um cochilo e outro, observava-se na tela um mapa indicando a posição da aeronave, distância percorrida, altitude e temperatura. Filmes musicais e comédias davam uma amenizada no nervosismo natural causado por uma viagem que parecia nunca terminar.

Lá em Orlando, os hóspedes não têm de que se queixar. O “tratamento” é de primeiro mundo, exceto pelo café da manhã, caro, ruim e não incluído na diária do Hotel. Pior: a maioria deles não oferece o serviço. Você tem que se virar fora se não quiser ficar com fome.

Vamos falar de coisa boa. Os parques de Orlando são um deslumbramento. Verdadeiras fábricas de alegria e diversão para todos os gostos e idades. Várias atrações, adrenalina pura, desafiam a coragem de muito marmanjo.

Quem deseja tomar um banho de fantasia, sair do mundo real é só fazer um passeio pra lá de agradável e vagaroso, num barquinho do Magic Kingdom. O cenário sempre noturno – embora o sol esteja a pino lá fora – transmite a ideia de uma caverna muito alta, linda, iluminada e ricamente decorada. A trajetória é sinuosa. Aqui e acolá, somos surpreendidos por pequeninos bonecos fantasiados, ocupando espaços incrustados em grutas laterais, tocando flauta e bandolim. Outros cantam melodias que nos fazem esquecer que pertencemos a este mundo.

Já no Epcot Center – sigla em inglês para “Protótipo Experimental da Comunidade do Amanhã” – o que chama a atenção é uma gigantesca bola na cor alumínio.  Por fora faz lembrar casca de jaca. A esfera geodésica como é chamada se assemelha a um sólido com inúmeras faces muito pequenas. Lá dentro tudo é futuro. Ao meio de tanta novidade o espectador mais desprevenido pode ficar boquiaberto. Se você tem espírito de um Júlio Verne, tudo bem. Fica mais fácil conceber os avanços tecnológicos sugeridos.

Boa dica para quem deseja conhecer cozinha internacional ou adquirir souvenir: no entorno de um grande lago há lojas e restaurantes representativos de onze países. No chinês é possível saborear salada de frango com gergelim e arroz frito. Por enquanto ainda não servem espetinho de inseto. Ravioli de caranguejo e carré de cordeiro, no francês. O que não faltam no restaurante alemão: cerveja e aquele enorme joelho de porco que me causa enjoo só em pensar. Chucrute. O Brasil ainda não se faz presente no Pavilhão das Nações.

Cinema 3D não é novidade pra ninguém. Claro. Entretanto aconteceu o inusitado numa parte em que gabirus corriam pra lá e pra cá num local em ruinas, muito sujo e escuro. De repente a cena os projetou como que saindo da tela. Nesse exato momento todo mundo sentiu uma lufada de ar à altura do tornozelo como se os ratos estivessem passeando pelo salão. Gritaria geral.

Lembranças adormecidas ganharam vida nos estúdios da Universal. Cenas de floresta, Tarzan e seu famoso grito, viajando em balanço de cipós até encontrar Jane e a macaca Chita. Tudo isso ao vivo me emocionou. Fui como que transportado no tempo, para a matinê do Cinema Central em Afogados. Tarzan, o rei das selvas!

A aventura poderia ter sido melhor não fossem as filas quilométricas. Muitas atrações deixaram de ser vistas. Indiana Jones, por exemplo, nos tomou duas preciosas horas de espera. Valeu a pena ver as técnicas usadas nas cenas de grandes explosões seguidas de incêndio. A impressão era que os atores tinham virado carvão. No final, apareceram sorrindo.

 Impossível não mencionar a pane do micro-ônibus a caminho de Busch Gardens, parque das montanhas russas e animais africanos. Nossa guia turística, um amor de pessoa, sempre solícita e cuidadosa. Foi eficiente até onde pôde. O motorista apontava para um posto de gasolina alguns quarteirões adiante, onde deveríamos esperar até que providenciasse outro veículo. Falava alto num esforço descomunal e ninguém entendia bulhufas. A guia não sabia patavina de inglês.

Escrito por José Carvalho.

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VERDADE OU MENTIRA?

12 de abril de 2012 1 comentário

 A Bíblia registra no livro dos Provérbios que a palavra dita a seu tempo é como maçãs de ouro em salvas de prata. Mas, qual o tempo certo para se dizer a verdade? Numa situação envolvendo outra pessoa, sempre é necessário jogo de cintura a fim de não ferir susceptibilidades. É de se imaginar que nem todo mundo está preparado para ouvir a verdade, especialmente quando esta mexe com interesse pessoal. O coração é terra desconhecida e o pensamento território sagrado. Fácil é usar artimanhas para contornar situações onde a verdade não cai bem. Em nome do bem estar geral a verdade precisa dar lugar à mentira. Se não desejo receber quem bate à porta, mando dizer que não estou. Se o telefone toca e estou ocupado, meu filho responde que ainda não cheguei do médico. À visita inesperada digo que acabei de chegar quando na realidade estava pronto para sair.

Se a verdade é boa e a mentira ruim chega-se à conclusão de que os valores estão invertidos. Para acomodar inquietudes o jeito é imaginar coisas, fugir da realidade e entrar no mundo dos sonhos. Assim, atravessemos uma montanha para, do outro lado, encontrar gente que fala a verdade. Vê-se um rio cortando a mata fechada, desenhando uma profusão de retas e curvas. Ninguém sabe se desemboca noutro rio. Na margem direita há uma aldeia. Primitivos, seus habitantes vivem da caça e pesca e nunca estudaram Ecologia. Aliás, são todos analfabetos. Nem sabem o que significa meio ambiente.  Também, para quê?  Não têm indústria para poluir rio e nem fumaça preta de caminhão. Coexistem pacificamente com a Natureza! Ar puro. Saudável. Parece que parte do céu aterrissou ali. Diz a lenda que, nas noites de sexta-feira, quando chove, troveja e cai muito raio. Um deles é milagroso. Quem por ele é alcançado não morre. Recebe coração novo e só diz a verdade. Sua palavra é aceita sem contestação. Seu compromisso é única e exclusivamente com a verdade. É credor de elevado respeito da comunidade. Desfruta de confiança igual ou talvez maior àquela dos homens de antigamente garantida pelos fios de bigode.

Claro que nem tudo são flores na Aldeia do Sonho. Milhares de homens, mulheres e crianças ainda mentem, entretanto, esperam ansiosamente pela sexta-feira chuvosa. Um dia, quem sabe, o raio milagroso não lhes cai na cabeça! Quem sabe! Todos querem se livrar dessa maldição, poucos, entretanto, conseguem. Porque dependem de algo que vem do céu.

A mentira é viciosa, escravagista. A verdade liberta. Por conta desse divisor de águas, a Aldeia do Sonho ainda não é um paraíso. Talvez o sonho continue cada vez mais distante e ela nunca o seja. No momento está dividida: De um lado, os filhos da Luz, do outro, os mentirosos.

Enquanto a sexta-feira de chuva não vem e o raio milagroso não aparece é preciso usar a máscara da mentira. Gesto seguido por todos os aldeões de segunda classe, até quando Deus quiser.

Escrito por José Carvalho.

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INTOLERÂNCIA

3 de abril de 2012 1 comentário

Há uma canção popular que define com muita propriedade o Brasil como um país de clima tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. A bênção vem do Cristo Redentor lá no Rio de Janeiro e se espraia pelo país inteiro. Braços abertos, acolhimento divino.  Bonito pela exuberância da Floresta e do Rio Amazonas, portentosos por si mesmos. Beleza presente também nas paisagens deslumbrantes, no céu azul, nas belíssimas cachoeiras, nas praias de águas mornas, e, principalmente, no calor humano do seu povo. Um povo hospitaleiro. Hospitalidade que se revela inclusive no trato com aqueles que nos visitam. Prestadores de serviços são capacitados através de cursos de inglês e de boas maneiras para melhor atender às necessidades do turista. No Brasil o visitante estrangeiro é recebido com dignidade e cavalheirismo. Coisa rara em outros países.

No geral, nossos irmãos do hemisfério Norte, não têm esse cuidado todo. Países de primeiro mundo, recepção de segunda. Não se sabe se o frio derrete o calor humano ou se este nunca existiu. Observadores afirmam que são menos sentimentais e mais pragmáticos que os latinos. Estados Unidos, por exemplo, inventam máquina para fazer de um tudo, desde Coca-Cola até ônibus espacial. Para eles, imaginem, não há a menor dúvida de que os irmãos Wright são os verdadeiros inventores do avião. Desenvolvimento, automação e praticidade são a tônica. Agora, no trato com pessoas, pouca conversa e vamos ao que interessa. “Bom dia, como vai, o tempo está ótimo hoje”, não fazem parte de diálogo entre vendedor e cliente de loja, por exemplo. AliásAANãoNãNão se sabe por que cargas d’água a frieza é marca registrada. Há de se supor que o clima tenha penetrado no coração e mexido com o humor deles. E com o sentimento, também. Sentimento de desamor politicamente correto que deveria estar longe do seio familiar. Na cidade de Richmond, conheci um jovem de 25 anos que há sete havia sido “convidado” pelos pais a sair de casa. Motivo: Completara maioridade. Precisava se virar sozinho, assumir a própria vida. Questão de cultura. De um modo geral, é costume de o amor passar ao largo da família comum americana. Diferentemente, laços de afeto unem a família brasileira.  No exagero, alguns filhos até que se acomodam com a boa vida da casa paterna e se esquecem de que é chegada a hora de voar com as próprias asas.  

Nas ruas das grandes cidades de lá, a indiferença não é menor. Você se sente solitário em meio à multidão de pessoas frenéticas, ziguezagueando pra lá e pra cá mais parecendo um bando de formigas, umas em busca e outras já retornando para o formigueiro com a folhinha mais verde. No metrô, o filme se repete. Você pode até ficar nu (o que seria absurdo) que ninguém vai notar. Ninguém se preocupa com ninguém. A indiferença impede o olho no olho. O silêncio do companheiro de viajem constrói barreira parecida com aquela do antigo muro de Berlim. O brasileiro acostumado a puxar conversa fica meio escabreado, sem entender aquela quantidade enorme de gente de olhar posto no infinito ou centrada em si mesma.

Os mestres na arte de “como não fazer amigos” são poucos, mas, existem. Consideram-se acima do bem e do mal. Se acham aquela bola toda. O status de potência mundial tanto militar como econômica, pode ter-lhes subido à cabeça. Superiores a tudo e a todos, estão pouco se lixando para os outros. Presunçosos, desdenham de quem não é do próprio time. Lembram-se, anos atrás, daquele espécime raro, que, ao ser fotografado na imigração deu o dedo médio, numa atitude pra lá de desrespeitosa? E o deboche silencioso de alguns gringos sujos que passeiam nos Shoppings de sandália japonesa, camisa desabotoada, bermuda surrada e barba por fazer?

Tio Sam é, de longe, a nação mais prepotente do planeta. Onde quer que esteja, demonstra força. Ainda não consegui e acredito que jamais serei capaz de engolir os enormes blocos de concreto que ocupam quase a metade da rua em frente à Embaixada deles, aqui no Recife. Também, são grandes demais!

Apesar de tudo há o que se ver na América. Prova disso é o crescente número de turistas brasileiros que vão até lá em busca de entretenimento e cultura. Parques temáticos, museus, teatros e cinemas da Broadway. Vale a pena visitá-los.

Já se foi o tempo que o francês e a Universidade de Paris Sorbonne eram o must. Se em 1956 a comunidade acadêmica ficou meio balançada e ameaçou aprender russo, por causa do lançamento do Sputnik e, se hoje, alguns empresários querem melhorar seus negócios com a China, pretendendo balbuciar Mandarim, verdade é que o Inglês é a língua universal, dominante nos negócios, no turismo e na ciência hodierna.

Indispensável para quem deseja dar uma incrementada no currículo, a língua inglesa exerce um fascínio muito grande especialmente entre os jovens. Nos últimos tempos, muitos brasileiros têm migrado para o exterior em busca de melhores condições de vida. Uns para trabalhar, outros para estudar. Tudo tem um preço. Todo cuidado é pouco para quem se aventura em terras estranhas.  Ninguém está a salvo do preconceito, da intolerância, dos maus tratos. Recentemente um jovem brasileiro supostamente acusado de pequeno delito, morreu fulminado por arma elétrica disparada pela polícia de Sydney. O delírio persecutório de que fala Dayse de Vasconcelos Mayer em recente crônica, fez mais uma vítima. Desta vez na Austrália.

Escrito por José Carvalho em março 2012.

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ESTRADA DOS REMÉDIOS

O dia corre célere. Quando menos se espera chega sexta-feira. Incrível como a semana passa rápido. Mal começa o mês e a folhinha marca dia vinte e sete. Daqui a pouco chega o fim do ano. Lembro como se fosse ontem quando reunidos em família festejávamos, trocando presentes, a entrada do ano novo que agora passou. Pois é, quando começam os meses terminação “bro”, pode garantir que o ano vai terminar por esses dias.

O envelhecer começa com o nascer. Se o estar vivo é uma tragédia, problema de quem assim pensa. Viver é bom até demais. O instinto de conservação nos impele a preservar e amar o nosso maior patrimônio: A vida. Estar no palco ou na plateia, pouco importa. Ninguém quer perder um ato sequer do teatro que ela significa. A oportunidade é única para viver, testemunhar e também contribuir para que as transformações aconteçam. Mudanças. Boas mudanças na busca de resultados melhores, simples e rápidos, porque o mundo não para. Por fim muitas práticas antigas dos nossos antepassados vão aos poucos perdendo a utilidade e caindo em desuso.

Problemas sociais ainda castigam grande parte da população brasileira. Apesar disso o número de idosos cresce a perder de vista. Abençoados são aqueles que têm a felicidade de acender oitenta, noventa velinhas sobre um bolo de aniversário. É uma vitória nos dias de hoje significados pela violência sem tamanho. Mas, há um preço a pagar, mesmo quando a saúde continua firme: A saudade. Com quem conversar? Eis a questão! A esta altura Deus já tem levado quase todos os amigos de infância além dos pais, avós, enfim, o velhinho se sente impedido de trocar ideias, compartilhar emoções vividas nos momentos prazerosos de uma época que não volta mais.  

Todo sábado à noitinha estavam lá sentados nos batentes da Padaria Mimi, Heron Chico das Neves e seu irmão Wilson. O pai não ia demorar.  Logo, logo desceria do bonde do Largo da Paz. Dalí, os três seguiriam pra feira de Afogados. Depois era só caminhar com as compras pela escuridão da linha do trem, passar por trás da Souza Cruz, pela Estação Ipiranga até chegar em casa, na Mangueira. Questão de cultura, educação, criação sabe-se lá. Fato é que eles não questionavam. Encaravam as tarefas com naturalidade. Não ficava somente no carregar balaio de feira na cabeça, não. Sem água encanada eles se revezavam no buscar latas d’água no chafariz a uns quinhentos metros de casa. Pela manhã a jarra tinha que estar cheia. A quartinha era colocada na janela pra água ficar fresquinha. O tempo muito mais ameno do que hoje (não se falava em aquecimento global, efeito estufa, essas coisas) compensava a ausência de geladeira que só chegará depois de alguns anos. Não precisa acrescentar que Heron Chico das Neves detestava lavar prato, mas, admitia a possibilidade de varrer. A louça ficava com o mano.

O lar é a primeira e a melhor das escolas. Cedo os dois irmãos aprenderam que trabalhar é virtude, não tira pedaço. O senso de responsabilidade passado de geração a geração cria hábitos de valor. Na falta, o futuro homem pode se distanciar da dignidade por não incorporar o trabalho na sua prática de vida.

Vez por outra Heron Chico das Neves para pra pensar. De repente, visualiza mentalmente a figura de um novelo de fita colorida e brilhante. À medida que se desenrola – quase como num passe de mágica – as lembranças de antigamente aparecem em forma de pequenos quadros vivos, um pouco menores que os vídeos da internet. Essas lembranças causam um sentimento de angústia simplesmente por não haver com quem dividi-las. Ah se o pai pudesse estar aqui, agora! Quanta coisa para conversar, reviver e até mesmo confessar. A Fábrica de Gelo e o Ferro Velho, lá por trás do Mercado que não mais existem. O negócio do sorvete raspa-raspa. A tecnologia do mel de frutas introduzida por Wilson. A Barraca postada na esquina da Rua João Leite, que, nos domingos de sol e futebol ia para o campo do Piolho. O campo ficava lotado quando o Quatro de Julho jogava.  O movimento era grande e o lucro também.

Se o pai pudesse estar aqui, Heron Chico das Neves por certo pediria perdão por ter se juntado a uma turma da pesada e subtraído alguns parafusos sobressalentes deixados ao longo da linha do bonde. Ainda bem que essa atitude impensada não causou maiores problemas. Também durante a semana, junto com a molecada, se arriscava pelos quintais alheios à procura de sucata de ferro, alumínio, cobre, vidro e até mesmo osso para vender no Ferro Velho e apurar a entrada do cinema nas matinês de domingo. Quando vendia boa quantidade de alumínio e cobre – mais caros – sobrava dinheiro até para o lanche e a passagem de volta pra casa.

Do início até a feira de Afogados, a Estrada dos Remédios está hoje um verdadeiro mercado persa. Sujeira por todo canto. Tem de tudo pra vender. Ambulantes ocupam as calçadas e até parte da pista, vendendo galeto, espetinho, discos piratas, caldo de cana, tapioca, frutas e verduras.  Barulho infernal. Carros fazem fila dupla, interrompem o trânsito, tiram a paciência do motorista que precisa circular pela área. Só há uma explicação para o comportamento omisso da autoridade competente: Outubro tem eleição. Fim de papo.

É necessário que a imagem da Estrada dos Remédios fique congelada no tempo em que era apenas uma rua carroçável. Uma rua comprida, na qual pedras redondas irregulares de variados tamanhos faziam as vezes de pavimento. Uma rua ladeada por vegetação, espécie de alameda, da qual desprendia um cheiro gostoso de mato verde, principalmente quando caía uma chuva fina. Era estreita, tá certo, mas, por ela dava pra se chegar até a Madalena. Heron Chico das Neves jamais teria coragem de denunciar ao pai, o estado deplorável em que hoje se encontra aquela que foi a primeira rua mãe que de braços abertos acolheu o ilustre imigrante do interior nos anos 1930!

Escrito por José Carvalho.

 

 

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O BAILE

Imagine uma mulher exótica, problemática, que foge de todo tipo de contato social, achando que o mundo está contra ela. Assim era a moradora da casa nº 350. Por conta desse hábito nada convencional, ganhou um apelido que a deixava irritada. Quando a chamavam de Doidona, ficava braba que só uma capota. Depois que sua querida tia Antônia faleceu, a mulher misteriosa sentiu a dor da solidão. Passou a viver o tempo todo enfurnada em casa, deitada, rodeada de muitos gatos. Não tomava banho todo dia. Raramente saía da casa, na Rua de São Pedro, lá na Mangueira. Casa escura, janelas sempre fechadas, paredes mofadas pelas infiltrações de chuva. Desarrumação total. Piso muito sujo. Fazia tempo que não via vassoura. Tudo indica que se tratava de uma doente mental. Tinha mania de criar gatos e cachorros. Dividia a cama com eles. Boatos havia de que um filho dela a visitava de vez em quando. De uma coisa fiquemos certos: Boa vizinha, não incomodava ninguém.

 Os pertences dela eram estranhos também. Possuía uma bolsa grande, surrada onde guardava uma série de objetos pessoais inclusive dinheiro. Não dava pra saber se já foi branca ou se é beije ou marrom. Certa ocasião, ao sair à rua para comprar mantimentos levou uma tremenda vaia. Também não era pra menos: Mal humorada, desgrenhada, caminhava segurando um gato e puxando dois cachorros pela coleira. Além disso, a roupa suja que usava fedia mais que banheiro de rodoviária. Terminada a compra, surgiu o inesperado. A curiosidade tomou conta dos circunstantes.

Preciso abrir um parêntese: Na ocasião dois boêmios animavam o ambiente comercial. Prática habitual de desocupados fazer plantão nas bodegas. No balcão, dois copos pequenos de fundo grosso, próprios para servir bebida forte e uma garrafa de aguardente. Um deles tocava pandeiro como poucos. Fazia coreografias e peripécias que nem os malabaristas das escolas de samba do Rio de Janeiro. O outro tinha a unha do polegar direito muito grande que servia de paleta para tocar o violão. A dupla chamava a atenção de todo mundo. O do pandeiro, cantor de primeira. Do vasto repertório, as músicas mais apreciadas eram: Ave Maria no Morro de Herivelto Martins, Carinhoso de Pixinguinha e Amélia de Mário Lago. O próprio dono da venda não era muito simpático a essa festa de final de semana, achando que o barulho pudesse incomodar a vizinhança, mas, fazia vista grossa porque as pessoas atraídas pela música acabavam comprando alguma coisa. Acredita-se que eram malandros cariocas, porque se sentiam mais do que agradecidos e contentes com os trocados que caíam no chão, ou melhor, num chapéu colocado, a propósito, de boca pra cima. Diziam-se felizes por deixarem a vida os levar, a exemplo do sambista Zeca Pagodinho.

Quando a mulher começou a procurar o dinheiro na bolsa para pagar as compras, o cara parou de tocar enquanto todos notavam que o balcão ia ficando cada vez mais cheio de bugigangas: Um pente grande faltando dois dentes, um pé de galinha fossilizado, uma régua de cálculo, cinco folhas soltas de antiga tábua de logaritmos, um rolo de papel higiênico, uma escova de cabelo, cinco alfinetes de pressão, uma caixa de fósforos, uma tesoura de unha, dois pedaços de vela, uma lata de graxa de sapato, um prego enferrujado, um carretel de linha número cinquenta, um guardanapo sujo de batom, seis berilos, três dentes de alho e uma colher de pau. E o dinheiro, nada! Finalmente, ao tempo em que o suor do nervosismo começava a marejar-lhe a testa, lembrou-se que, temendo ser assaltada, havia escondido a carteirinha no seio.

Ainda adolescente Lygia matriculou-se no curso de Engenharia Civil na Universidade Federal de Minas Gerais depois de ter passado no vestibular em primeiro lugar. Prédios, pontes, viadutos e rodovias. Tudo isso a fascinava. Sem a certeza de que os cursos oferecidos nas Escolas locais satisfizessem plenamente suas elevadas aspirações, conseguiu a muito custo, autorização para estudar na Capital. A fazenda da família ficava num sítio a pouco mais de cem quilômetros de Governador Valadares. Seu pai possuía algumas cabeças de gado, mas, o seu forte mesmo era agricultura. Trabalhar a terra deixou-lhe marcas na mão e na alma também. Hoje é fornecedor de frutas e legumes para a Central de Abastecimento da cidade. Não precisa mais pegar na enxada. Entretanto, sol forte e chão duro transformaram-no ao longo do tempo numa pessoa de convicções rígidas, inflexíveis. Nada fácil convencê-lo a permitir que a filha fosse morar numa república para moças, lá em Belo Horizonte. 

Mulher geralmente não morre de amores por ciências exatas. Entretanto as exceções surpreendem. É o caso dessa mineira de fé. Colegas e professores admiravam-na pelo dinamismo e inteligência. Aluna laureada, monitora em todas as classes que frequentou, possuía sala exclusiva na Universidade. Ali estudava e tirava dúvidas dos colegas.

Simpática, sorridente e cheia de vida Lygia era também muito bela. O rosto delicado e róseo combinava com os olhos castanhos claros e cabelos da mesma cor. Boca e nariz de contornos harmoniosos davam o toque final. Guardadas as proporções, o conjunto até que poderia ser comparado à perfeição escultural da obra de um Michelangelo.

Fim de semana, animação tomava conta das moças da república. Afinal, distração faz parte. Longe dos pais estavam livres para curtir um baile, tomar umas e outras e fazer novas amizades. Obediente aos pais, a futura engenheira, por sua vez, preferia ficar trancada no quarto, estudando ou vendo televisão. Que as colegas fossem sozinhas!

Até que chegou o fim do ano. Ocasião para comemorar a conclusão do sexto período. Dessa vez não teve jeito. A mineira foi junto. Uma vez no baile, apesar de tímida, não teve problemas pra se enturmar. Ali estavam muitos rapazes da Faculdade, inclusive Americano, com quem ela dançou quase a noite toda. Americano era mais conhecido no campus do que água. Simpático, olhos claros e cabelo ruivo. Muito gentil, tinha boa lábia e traquejo político. Não podia negar que era presidente do Diretório Acadêmico. Dificilmente assistia aula. Todo ano ficava na dependência de uma ou duas cadeiras. Mesmo a um passo da jubilação, negligenciava os estudos. O negócio dele era fazer política estudantil.

No baile, o coração da mineira de Governador Valadares foi ferido pela flecha do amor. Apaixonou-se inesperada e perdidamente. Como não tinha reparado nele antes? Os meses que se seguiram foram importantes para que eles se convencessem de que nasceram um para o outro. Sempre de mãos dadas, formavam um par perfeito. Americano queria conhecer a família dela. Prometia um futuro de muito amor e felicidade. Lygia temia pela reação do pai.

Em meio à alegria da turma que passara de ano, uma notícia nada boa: Americano estava desolado. Tinha que sair da Universidade sem concluir curso algum. Lygia se esforçava para consolar aquele coração que chorava por dentro. Afinal era o amor da sua vida. Que fazer para ele voltar a sorrir. Abraçados. Ele chorando. Ela emocionada. Sem uma palavra se permitiram à intimidade de homem e mulher.

Meses depois, último encontro do par romântico: Americano sumiu quando soube que ia ser pai. Início de férias, fim de uma carreira promissora. O fazendeiro, desonrado pelo ato irresponsável de uma filha que tinha tudo para ser o orgulho da família, a expulsa de casa. Passou a morar sozinha com a ajuda dos parentes até que deu à luz um lindo bebê. A depressão pós-parto só fez aumentar a amargura e desilusão pela vida. Sentia-se muito só. Ninguém a compreendia. Todos a acusavam. Entregou o filho para ser criado por uma prima, lá mesmo em Governador. Lembrou-se de que só uma pessoa podia lhe acudir naquele momento de desespero: A querida tia Antônia, do Recife. Foi assim que Lygia se tornou moradora da casa nº 350.

Escrito por José Carvalho.

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MÚSICA

Música é arte. Arte de combinar sons e silêncio, segundo os entendidos. A matéria prima utilizada é audível, mas, imponderável e invisível: As famosas sete notas musicais. Por falar nelas, há um adágio popular dirigido a quem acha tudo difícil. Diz assim: “Isso não é nenhum bicho de sete cabeças”, implicitamente indicando que a arte que consagrou Beethoven o é.

 O compositor inspirado faz o pensamento sobrevoar aquele universo cheio de acordes, tons, compassos e andamentos qual beija-flor explorando a intimidade das flores à procura de grão de pólen.  Conhece como ninguém o efeito que uma nota separada ou em conjunto pode produzir e as escolhe com incrível maestria, inteligência e talento, harmonizando-as a ponto de dar a luz uma bela sinfonia. Muita vez a música penetra o coração, enleva a alma fazendo-nos esquecer, embora que por alguns momentos, os labores rotineiros da vida. Também é possível através dela, reacender a alegria de um passado adormecido. Recordar, reviver, ir até às lágrimas. Ser transportado simbolicamente de corpo e alma para um cenário que faz parte do passado, mas, ainda vivo na imaginação. Passamos a experimentar outra vez, momentos felizes que marcaram nossas vidas para sempre. E aquela melodia que trás tanta recordação e teima em não ser esquecida? Foi o que aconteceu com Dulce, uma antiga colega de trabalho. Sempre que tinha oportunidade falava daquele réveillon dos anos quarenta, quando conhecera o grande amor da sua vida, dançando ao som de “Senhor da Floresta” na voz do consagrado cantor Augusto Calheiros: Senhor da floresta, um índio guerreiro da raça Tupy/Vivia pescando, sentado na margem do rio Chuí/Seus olhos rasgados nos entanto fitavam ao longe uma taba/Na qual habitava a filha formosa de um Morubixaba, e por aí vai.

Autor seja ele músico, escritor ou pintor para só citar estes, movido pelo impulso da inspiração e pelo poder do talento exterioriza o que de alguma forma já se encontra desenhado na mente. Acredito que a genialidade ocupa um extremo onde a maioria é mediana.  Talvez por isso, obras de grandes mestres, tais como Beethoven, Mozart, Bach, Tchaikovsky e outros conseguem vencer o tempo. Quais diamantes, jamais perdem o brilho. Por sua vez, a maioria dos mortais também é capaz de expressar sentimento em forma de arte. Adquire nome e até chega a alcançar relativa notoriedade, entretanto, como fogo de palha, seus feitos, depois de estrondoso sucesso, de repente, caem no esquecimento e vão direto para o arquivo implacável do tempo. A música popular, em sua maioria, tem essa característica.

Conta-se que Beethoven foi convidado a assistir a um concerto musical. Na ocasião, já castigado pela surdez, pediu que lhe fornecessem a partitura do programa a fim de tentar captar, ainda que mentalmente, a melodia. Imagino o quanto descolorido e sem encanto será o mundo para a pessoa com problema auditivo.

Música e flor têm muita coisa em comum.  Estão sempre presentes em situações as mais variadas da vida. E diria até na passagem desta para melhor.  Seja a marcha fúnebre, seja a conhecida frase: “Até na flor existe a diferença de sorte, uma enfeita a vida, outra enfeita a morte”? Opa! Vamos esquecer essa velha chata, não?

Como dizia, vivemos cercados de sonoridade por todos os lados. Os passarinhos que chilreiam alegrando bosques e florestas com seus cantos maravilhosos; o sussurrar das fontes de águas cristalinas; o barulho das ondas do mar de encontro às encostas pedregosas e o galo anunciando o alvorecer de um novo dia. Dizem os estudiosos que Ludwig Von Beethoven escreveu a Sexta Sinfonia dedicada à vida campestre, levando a orquestra a reproduzir o cântico dos pássaros, os sons dos relâmpagos, dos trovões e da chuva. E o que dizer do mais importante e prestigiado instrumento musical de todos os tempos? Acreditem, não me refiro ao piano ou violino, mas, à voz humana insuperável por sua beleza melódica sem igual. Fosse o homem selvagem, por certo, o leão perderia o trono.

Sem medo de errar, diria que a música emociona e é ao mesmo tempo companheira inseparável da emoção. Quem está alegre por algum motivo quer música para dançar; quem vai trocar alianças não abre mão da marcha nupcial; quem recebe coroa de flores quer ouvir o hino nacional e dividir com os compatriotas o louro da vitória conquistada. A jovem de quinze anos quer debutar ao som de uma valsa e quem conquistou o grau de doutor quer festejar com um baile. Difícil admitir a ausência de música nas solenidades civis e religiosas, nos aniversários, nas competições esportivas e nas despedidas. Por falar nestas, houve um momento – julho de 1944 – em que a execução de um hino arrancou lágrimas da população que se enfileirava nas calçadas das principais ruas do Recife. Dentro dos caminhões militares os pracinhas da FEB acenavam com lenços brancos, antes de embarcarem para Itália. A música esteve presente, também, numa importante despedida: A última ceia do Senhor. O evangelista Mateus registra no capítulo vinte e seis versículo trinta que, terminada a ceia, Jesus e seus discípulos cantaram um hino antes de se dirigirem para o monte das Oliveiras.

Escrito por José Carvalho.

 

 

 

 

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